Vida de Cão, Coração de Herói: teatro para crianças
Vida de Cão, Coração de Herói é o espetáculo com que a Cia. Mundu Rodá chegou ao público infantil, em 2019. A companhia, conhecida pela pesquisa com tradições cênicas brasileiras, lança ali pela primeira vez seu corpo investigativo nesse território, apoiada em uma reflexão sobre o meio ambiente e em uma saga épica narrada por um cãozinho sobrevivente.
A escolha do gênero não simplifica o assunto. A peça trata de um dos maiores desastres ambientais ocorridos no mundo, o desastre de Mariana, em Minas Gerais, e o faz por uma saga épica. O resultado é um espetáculo que conversa com crianças sem esconder o que aconteceu com o rio.
A divulgação do projeto resume o gesto em uma frase: “o rio que era Doce, azedou”. É o desastre contado pelo avesso, trocando o relatório técnico pela travessia de um bicho.
A Cia. Mundu Rodá foi fundada em 2000 pelos artistas Juliana Pardo e Alício Amaral e mantém hoje oito obras em repertório, entre elas Vida de Cão, Coração de Herói (2019). O espetáculo é um desvio deliberado dentro de uma trajetória construída no intercâmbio com mestres de Cavalo Marinho e Maracatu Rural de Pernambuco.
Um vira-lata rio abaixo
Um cachorro é surpreendido enquanto o vilarejo é inundado por uma torrente de lama tóxica. Sem sinais do resgate, o vira-lata decide embarcar em uma poltrona desmantelada e navegar pelo Rio Doce em busca de sua família da espécie “gente”.
No leito contaminado, recebe a bordo peixes desiludidos, índios Krenak e até um parente pustulento do futuro, moradores das margens do rio. Na trajetória, cheia de surpresas, aprende a lidar com tamanha tragédia. A pergunta que o espetáculo deixa é simples e incômoda: até onde vai essa aventura enlameada?
Mariana, 5 de novembro de 2015
Em 5 de novembro de 2015, no município de Mariana, ocorreu o rompimento de uma das barragens da mineradora Samarco. O rompimento provocou uma avalanche de rejeitos de minérios de ferro, que devastou a comunidade rural de Bento Rodrigues.
Em seguida, essa lama tóxica avançou em direção ao Rio Doce, soterrando plantas, animais e toda a vida aquática por onde passava, até chegar à foz, onde invadiu o mar na cidade de Regência, no Espírito Santo. A peça não inventa o desastre: ela o redistribui em escala de criança.
Elementos que sustentam a viagem
Como a história é contada por um cão que não fala com palavras de adulto, quase tudo passa por objetos, sons e imagens. Vale observar como cada elemento assume mais de uma função ao longo da cena.
| Elemento | Como aparece | O que observar |
|---|---|---|
| A poltrona | Móvel que sobra do vilarejo e vira barco | Como o objeto muda de função na cena |
| A lama | Torrente que cobre o povoado e o leito do rio | Se o espetáculo nomeia a causa ou só o efeito |
| O Rio Doce | Caminho da viagem até a foz | Como o percurso organiza a narrativa |
| Os passageiros | Peixes, índios Krenak e um parente do futuro | Quem entra a bordo e por quê |
| A projeção | Animação e imagem em cena | O que a imagem acrescenta à narração |
Estreia, temporada e circulação
A estreia e a temporada aconteceram no Teatro Anchieta do SESC Consolação, em São Paulo. Depois, o espetáculo passou pelo SESC Araraquara e pelo SESC Campinas, levando a saga do vira-lata a públicos de outras cidades do estado.
O projeto foi contemplado pelo Edital ProAC nº 07/2017, de produção de espetáculo de artes cênicas para público infantil. Com esse apoio, circulou por Cotia, Cabreúva, Itaquaquecetuba, São Bernardo do Campo e Osasco, apresentando-se em centros de cultura, escolas e CEUs.
Essa circulação não é detalhe de produção. Num espetáculo sobre um rio que atravessa estados, apresentar em escolas e CEUs encurta a distância entre a fábula e o cotidiano de quem assiste.
Sete categorias no FESTKAOS
Em 2020, o espetáculo foi premiado no 5º FESTKAOS em sete categorias. O júri foi composto por Bob Souza, Miguel Arcanjo Prado e Alexandre Mate:
- Melhor Espetáculo.
- Texto.
- Trilha Sonora.
- Iluminação.
- Cenografia.
- Ator e Direção.
O reconhecimento simultâneo em áreas tão distintas diz algo sobre o desenho da montagem: texto, música, luz e cenário ali não são acabamentos separados, mas partes de um mesmo mecanismo de narração.
Quem faz o espetáculo
A direção e a intervenção cênica são de Juliana Pardo, com dramaturgia e texto de Alessandro Toller. Amanda Martins assina a música e a criação musical, Emilia Reily os figurinos e adereços, Giorgia Massetani a cenografia e as ilustrações, Eduardo Albergaria o desenho de luz e Alicio Silva a cenotecnia.
A equipe audiovisual reúne Paula Galasso na direção de arte e Pedro Brandão na animação e projeção mapping, com produção de Mariana Pardo e Deborah Penafiel. Alício Amaral assina a arte gráfica e Luiz Cabral a assessoria artística.
O treinamento corporal ficou com Alex Merino e Kalil Moreira, do FIT360, e a primeira etapa da contrarregragem em cena com Cibele Mateus. Adriano Castelo Branco respondeu pela confecção da boneca Pacumã e da máscara sonora Batik Krenak.
Na versão on-line, a ficha muda e cresce: Alício Amaral assume atuação, direção e criação musical, Amanda Martins entra como musicista em cena, Ana Luisa Anker responde pela projeção de imagem, e Cibele Mateus e Juliana Pardo fazem a voz em off da lama.
Do palco à tela
Em 2020 e 2021, o espetáculo ganhou uma adaptação inédita para o formato on-line, gravada especialmente para exibição remota. A temporada foi ao ar em março, com sessões nos dias 26, 27, 28, 29 e 30, e bate-papo ao vivo com a equipe de criação depois de cada apresentação.
A versão contou com apoio do Edital ProAC Expresso Lab 38/2020, de produção infantojuvenil, e foi exibida também pelo ProAc LAB 36/2020 e na 2ª Mostra Pombas Urbanas de Re-Existência. Para a tela, somou-se o treinamento e a pesquisa sobre congada e moçambique em Minas Gerais, conduzidos por Marcinho dos Santos, mestre em gungas.
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