Memórias da Rabeca: os toques e os mestres
Memórias da Rabeca é um espetáculo-solo contemporâneo que revela memórias guardadas por sete rabecas, trazendo à luz histórias e personagens que ficaram e continuam à margem da sociedade, da mídia e da justiça brasileira. São memórias que ecoam e atravessam os tempos e seus guardiões, os rabequeiros brasileiros.
O foco está nas dinâmicas das relações entre o humano e a rabeca. Assim como nós, cada rabeca é única, cada uma possui uma persona sonora: afinam e desafinam. Cada uma possui uma digital sonora e cultural.
Um instrumento que carrega histórias
Nas suas inúmeras possibilidades de ser e se reinventar, as rabecas documentam histórias por vezes inesperadas de lugares quase esquecidos deste país. A peça é um convite para o encontro com a multiplicidade desse universo.
A rabeca é um instrumento de arco presente em diversas práticas musicais brasileiras, do fandango caiçara do litoral paulista às festas e feiras do Nordeste. Quem a toca costuma construir ou adaptar o próprio instrumento, e essa relação artesanal é parte do que a peça investiga.
No espetáculo, a rabeca torna-se a voz, os pés e as mãos do ator que a toca, e o ator torna-se a vibração de suas cordas e sua música. Não há separação entre instrumentista e intérprete: o mesmo corpo toca e é tocado.
De onde vem a pesquisa
O espetáculo é fruto de intensa pesquisa artística realizada através do intercâmbio com rabequeiros da Cultura Caiçara, Quilombola e Indígena do Litoral Paulista. Envolve também pesquisa histórica sobre rabequeiros que marcaram a música e a poesia no Brasil.
Soma-se a isso a pesquisa de campo continuada da Cia. Mundu Rodá sobre os rabequeiros do Nordeste Brasileiro, em Pernambuco, Alagoas e Rio Grande do Norte. São frentes distintas de trabalho que convergem na mesma pergunta sobre o que a rabeca guarda.
Pesquisa de campo, nesse caso, significa convivência. Aprender com quem toca envolve escutar histórias, observar como o instrumento é cuidado e entender em que ocasiões ele é chamado a soar.
Sete movimentos
Uma obra de resistência poética, em sete movimentos para escutar através da palavra, do som e do corpo. Cada movimento tem uma base própria, e essa base define o material sonoro e a qualidade de presença do intérprete.
O primeiro, Cegos Rabequeiros, foi criado a partir dos registros de Toadas de Cegos de Mário de Andrade e do acervo musical e poético dos rabequeiros Cego Oliveira, Cego Aderaldo e Cego Sinfrônio. O segundo, Maneirinha, é uma peça instrumental criada para a rabeca de Seu Nelson, de Alagoas, em que a potência e o timbre especial do instrumento protagonizam a obra.
O terceiro, Boi da Mão de Pau, é inspirado na obra do poeta e rabequeiro Fabião das Queimadas, que viveu entre 1848 e 1928 e foi ex-escravo, tendo comprado sua liberdade e a de seus familiares com sua música e poesia.
O quarto movimento, Cultura Caiçara, Fandango, Resistência e Tradição, coloca em foco a cultura caiçara paulista, suas relações com o fandango e seus mutirões, e suas principais questões sócio-político-ambientais. O quinto, Iauaretê, é livremente inspirado no conto Meu Tio, o Iauaretê, de Guimarães Rosa, e percorre as fronteiras entre animalidade e humanidade sob uma perspectiva ameríndia.
O sexto, Minha Chã, traz memórias do próprio artista-intérprete de quando morava na comunidade de Chã de Esconso, na Zona da Mata Pernambucana, terra de encantarias e resistência cultural. O sétimo, Redemunho, é inspirado em histórias, mistérios e causos sobre tocadores pactários.
Elementos em cena
| Elemento | Como aparece no espetáculo | O que observar |
|---|---|---|
| Rabeca | Sete instrumentos, cada um com persona sonora própria | Como o timbre muda de um movimento para outro |
| Voz | O intérprete canta e fala junto ao arco | Quando a palavra ocupa o lugar do som |
| Corpo | Pés e mãos do ator conduzem o instrumento | O corpo que toca e o corpo que dança |
| Memória | Histórias de rabequeiros e de comunidades | Quais histórias ficaram à margem |
| Território | Litoral Paulista e Nordeste brasileiro | Como cada lugar define um modo de tocar |
Os guardiões da pesquisa
A orientação junto aos rabequeiros tradicionais é assinada por dez mestres que acompanham a pesquisa da companhia. A peça dedica ainda uma lembrança nominal aos rabequeiros que já morreram.
- Zé Pereira e João Firmino.
- Agostinho Gomes e Zé Lucas.
- Carlos Raymundo e Benedito Nunes.
- Oswaldo Curió e Luiz Paixão.
- Nelson da Rabeca e Damião.
- Em memória: Angelo Ramos, Antônio Teles, Manuel Salusitano, Mané Pitunga e Seu Mané Pereira.
Os nomes importam porque a peça não trabalha com um repertório anônimo. Cada movimento remete a um lugar, a um tocador e a uma história própria, e é isso que separa a homenagem da apropriação.
As rabecas e seus autores
As rabecas usadas na montagem têm autoria identificada: Fábio Vanini, Fernando Vanini, Nelson da Rabeca, Zé de Nininha, Zé Pereira e Oswaldo Curió. O instrumento, aqui, não é suporte neutro; ele foi feito por alguém e guarda as marcas dessa feitura.
Uma rabeca costuma passar por várias mãos, e cada conserto altera seu som. Saber quem fez o instrumento ajuda a entender o que se ouve, e a peça explora essa relação em vez de escondê-la.
Ficha técnica
Dramaturgia e textos: Alício Amaral e Juliana Pardo. Colaboração e provocação artística: Jussara Miller, Roberta Carreri, do Odin Teatret, e Luiz Fiaminghi.
Os intercâmbios com grupos de fandango do litoral paulista fazem parte do processo, entre eles o Grupo de Fandango do Ariri, em Ariri-Cananéia-SP, e o Grupo de Fandango do Bairro do Rocio, em Iguape-SP.
Por que a peça permanece atual
Ao colocar no palco personagens que ficaram à margem da sociedade, da mídia e da justiça brasileira, o espetáculo trata de memória como questão política. A rabeca entra como prova material de uma cultura que continua sendo praticada longe dos centros de decisão.
Para quem pesquisa teatro físico, o interesse está no modo como o treinamento musical se converte em dramaturgia. O intérprete não interpreta um rabequeiro: ele se deixa transformar pela vibração do instrumento, e a cena se organiza a partir dessa escuta.
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