Sambada de Reis: a folia em cena
No repertório da Cia. Mundu Rodá, a Sambada de Reis aparece como Boi Manjarra, brincadeira criada pelo grupo em formato de festa. A proposta não é reconstituir uma manifestação antiga, e sim colocar em cena o que a pesquisa com mestres ensinou sobre celebração e cortejo.
O caminho até esse espetáculo passa pelo Grupo Manjarra, o núcleo de estudo da companhia. Boa parte das escolhas da cena nasce da convivência com brincadeiras tradicionais, e não de um roteiro fechado.
O Núcleo Manjarra e a pesquisa
O Grupo Manjarra, núcleo de estudo da Cia. Mundu Rodá, foi fundado pelos artistas Alício Amaral e Juliana Pardo. O grupo objetiva a criação de uma identidade artística própria, tendo como principal referência os estudos e vivências com o Cavalo Marinho Pernambucano.
Essa referência se amplia com outras brincadeiras tradicionais, como o Boi de Reis (RN) e celebrações para o Divino Espírito Santo no Estado de São Paulo. Um núcleo de estudo, nesse caso, não é uma escola: é o lugar onde a experiência de campo vira material de cena.
Uma brincadeira inventada
Em 2005 nasceu o Boi Manjarra, uma brincadeira inventada, que compartilha do espírito de celebração, da festa e do rito. Foi carinhosamente batizada e apadrinhada pelo Mestre Inácio Lucindo, do Cavalo Marinho Estrela do Oriente de Camutanga (PE).
O apadrinhamento também veio de Aguinaldo da Silva, do Cavalo Marinho Estrela do Ouro de Condado (PE). O termo inventada, aqui, não significa arbitrária: a obra se apresenta como criação autoral e, ao mesmo tempo, pede licença a quem é de tradição.
Boi de Reis e o ciclo natalino
O Boi de Reis é uma brincadeira do ciclo natalino, organizada em torno da figura do boi, do cortejo e do canto. Como outras manifestações do período, ela combina devoção, encontro e teatro, e costuma ocupar ruas, terreiros e pátios em vez de um palco fechado.
Já as celebrações para o Divino Espírito Santo, no Estado de São Paulo, organizam-se em torno de folias, cortejos e rituais de comunidade. São formas distintas entre si, mas todas trabalham com a mesma ideia que interessa ao Boi Manjarra: a festa como estrutura cênica.
A festa do Capitão Marinho
Ao som de instrumentos como a rabeca, bombos de corda, bages e mineiro, figuras e folgazões comemoram o grande baile oferecido pelo Capitão Marinho. O ritmo pulsante da música é acompanhado por diferentes formações coreográficas e passos denominados “trupés”.
Nesse sapateado brasileiro, a forte pisada, a leveza e a graça dos movimentos dos brincadores se unem compondo variados desenhos coreográficos e jogos ritmados com o público. O baile funciona como espinha dorsal do espetáculo: tudo o que entra na cena entra porque foi convidado para a festa.
| Elemento | Como aparece no espetáculo | O que observar |
|---|---|---|
| Cortejo | Grupo em deslocamento, com música ao vivo | Como o percurso muda a relação com quem assiste |
| Parada | Momento de baile em espaço aberto | Como a roda se forma em torno do Banco |
| Trupé | Passos que marcam a célula rítmica | Se a pisada se mantém coletiva |
| Boneco gigante | Figura de grande porte manipulada pelo grupo | Como o tamanho altera o desenho no espaço |
| Cocos de despedida | Canto e dança final com o público | Se o público entra na roda de fato |
Levar essa estrutura a espaços diferentes exige ajuste: um cortejo depende de percurso, e um percurso tem obstáculos, esquinas e público disperso. Por isso a montagem alterna entre deslocamento e parada.
As figuras compradas de Seu Ambrósio
No decorrer da festa o Capitão Marinho compra de Seu Ambrósio, um vendedor ambulante de brincadeiras, uma série de figuras máscaras para integrar a sua festa. A cena repete um procedimento comum nas brincadeiras tradicionais: a personagem chega porque alguém a negociou.
Uma vez compradas, bonecos gigantes e figuras mascaradas como o “Soldado”, o “Mateus”, o “Mané Pequenino”, a “Margarida” e o “Boi” aparecem para contar suas curiosas histórias no grande baile oferecido em homenagem ao Capitão Marinho.
Cortejo, parada e cocos de despedida
A festa se completa com a participação do público, que não fica indiferente à passagem do colorido cortejo e se une à brincadeira para festejar. No fim, todos formam uma roda para cantar e dançar os cocos de despedidas.
A duração é de 01:20h (uma hora e vinte minutos), em formato com cortejo e parada. A escolha do formato tem consequência prática: o espetáculo pode ocupar rua, praça ou pátio, e não depende de uma caixa cênica tradicional.
Ficha técnica
A concepção artística e a direção cênico-musical são de Juliana Pardo e Alício Amaral. O elenco reúne Alício Amaral, Juliana Pardo, Ana Célia Martins, Carolina Moya, Adriano de Jesus, Nilma Rodrigues, Marina Esteves, Juliana Silva, Germano Falcão, Geziela Goes, Monique Franco, Val Ribeiro e Cibele Mateus.
Os figurinos e adereços são de Mestre Aguinaldo da Silva de Condado (PE), do Cavalo Marinho Estrela de Ouro, e de Mila Reily. A presença de um mestre na confecção do figurino não é detalhe: é o mesmo princípio do apadrinhamento, aplicado ao objeto que a cena veste.
O que observar na festa
- Como o cortejo se adapta ao lugar por onde passa.
- A entrada de cada figura e a toada que a anuncia.
- O equilíbrio entre pisada forte e leveza do movimento.
- O momento em que bonecos gigantes dominam o desenho.
- A reação do público durante a parada.
- O fechamento coletivo nos cocos de despedida.
O Boi Manjarra é, ao mesmo tempo, espetáculo e declaração de método. Ele mostra o que a companhia aprendeu com o Cavalo Marinho, com o Boi de Reis e com as festas do Divino, sem transformar esse aprendizado em cópia.
Para quem assiste, a leitura mais direta é acompanhar a festa como festa. A cena não pede que o público decifre referências: pede que entre na roda quando ela se abre, e que sustente o tempo da celebração até o fim.
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