Figuras Inesperadas: máscaras fora do contexto
Figuras Inesperadas é a mais nova montagem da Cia. Mundu Rodá, contemplada pelo edital PROAC “Produção de Espetáculo Inédito no Estado de São Paulo”. O espetáculo cênico-musical parte dos arquétipos das figuras mascaradas da dança dramática do Cavalo Marinho Pernambucano, registradas ao longo dos 15 anos de pesquisa da companhia.
A pergunta que organiza o trabalho está no subtítulo do projeto: em busca de corporeidades para o ator e bailarino a partir da dança tradicional do Cavalo Marinho. Não se trata de transportar personagens folclóricos para o palco, e sim de investigar como eles constroem corpo, voz e presença.
Do diário de bordo à cena
Nesta obra a companhia mergulha na construção de uma narrativa poética que dialogue com a tradição e o teatro contemporâneo. O ponto de partida é a investigação dos diferentes elementos que constituem tais figuras, como a musicalidade, a máscara, as loas, o canto, o jogo e a dança.
Cada um desses elementos é tratado como linguagem, e não como adereço. A máscara define o ângulo do olhar, a loa define o tempo da fala, o jogo define a relação com o outro, e a dança amarra tudo em uma mesma pulsação.
A cidade inventada
Com dramaturgia e texto dos autores e dramaturgos Luis Alberto de Abreu e Calixto de Inhamuns, o espetáculo propõe o diálogo entre o universo fantástico das figuras tradicionais e a poética urbana das grandes metrópoles, revelando o potencial expressivo e crítico social das máscaras brasileiras.
Um senhor poderoso manda construir uma cidade para ser exemplo de modernidade, organização lucrativa e prazerosa. Jogos e divertimentos informais, a comicidade corrosiva, combativa ou despretensiosa são malvistas. Nela o artista perde a sua função, a tradição é vista com menosprezo e começa a haver um processo de divisão, higienização social e violência.
O ser humano começa a perder suas raízes e o poder torna-se decadente e solitário. Para povoá-la, seu administrador, o Capitão Marinho, compra de Mestre Ambrósio, um vendedor de Figuras, um saco de figuras.
O Capitão porém começa a expulsá-las, pois elas não têm utilidade, nem dinheiro, nem qualificação para morar na cidade. Ambrósio tenta modificar algumas figuras para que elas fiquem. Enquanto figuras são expulsas, outras querem entrar.
A morte de uma das figuras gera uma revolta que é sufocada. Surge um Cavalo e lidera as figuras na construção de uma outra cidade onde elas caibam.
Elementos e procedimentos
| Elemento | Como aparece na montagem | O que observar |
|---|---|---|
| Máscara | Confeccionada a partir da pesquisa das figuras do Cavalo Marinho | Como o rosto fixo obriga o corpo a responder |
| Loas | Versos tradicionais recriados dentro da dramaturgia | Onde o verso vira ação e onde vira comentário |
| Musicalidade | Criação e orientação musical de Alício Amaral | Se a música conduz a cena ou apenas a acompanha |
| Jogo | Relação direta entre figuras e Capitão Marinho | Como a comicidade carrega a crítica social |
| Dança | Corporeidades tradicionais em contexto urbano | O atrito entre o gesto antigo e a cidade moderna |
Os mestres que orientaram o trabalho
A orientação e provocação sobre as figuras do Cavalo Marinho ficaram com Mestre Inácio Lucindo e Mestre Biu Alexandre. Os ensaios e experimentos foram realizados com Mestre Inácio Lucindo, de Ferreiros, em Pernambuco, e com Mestre Biu Alexandre, de Condado, também em Pernambuco.
O processo passou por experimentos cênicos em contexto e fora de contexto. Entre eles estão improvisações com os dois mestres, teasers de sambada, uma chamada na Praça Pinheiro da Cunha, no Ipiranga, em São Paulo, e encontros no Instituto de Artes da Unesp, na Barra Funda, e no Centro de Pesquisa e Formação do SESC SP.
Há ainda desdobramentos em forma de palestra, workshop e intercâmbio, incluindo uma parceria com a OCA, Associação da Aldeia de Carapicuíba. O aprendizado com os mestres não ficou restrito ao elenco: circulou por espaços de formação e por comunidades.
A máscara como pesquisa
A pesquisa em máscaras teatrais e a confecção das máscaras são de Fernando Linares, que também orientou workshop de máscara neutra, larvárias e de velhos. A pintura das máscaras de Cavalo Marinho é de Murilo de Paula.
Trabalhar com máscara exige do intérprete uma economia radical. O rosto deixa de informar, e a informação passa a vir da inclinação da cabeça, da direção do olhar e da tensão dos ombros.
É nesse ponto que a pesquisa de corporeidade encontra o teatro contemporâneo. A figura mascarada não é um personagem a ser imitado, e sim uma estrutura de movimento que o ator precisa habitar.
Música, figurino e cena
- Máscaras confeccionadas a partir do estudo das figuras tradicionais.
- Loas e canto como base do texto falado e cantado.
- Criação musical pensada junto com a construção das cenas.
- Figurinos e cenário tratados como parte do jogo, não como ilustração.
- Improvisação como método de ensaio com os mestres.
- Registro do processo em projeto audiovisual.
A criação e a orientação musical são de Alício Amaral, com Daniel Rodrigues e Adriano Soares como músicos. A pesquisa e os figurinos são de Mila Reily, e o cenário e os adereços, de Cesar Resende.
Na tradição do Cavalo Marinho, a música não espera a cena começar. Ela é o próprio tempo da brincadeira, e por isso a montagem trata o material musical como eixo dramatúrgico, e não como trilha aplicada depois.
Ficha técnica
Atores criadores: Alicio Amaral, Cibele Mateus, Juliana Pardo e Val Ribeiro. Dramaturgia e texto: Luís Alberto de Abreu e Calixto de Inhamuns. Orientação artística: João das Neves. Direção geral: Cia. Mundu Rodá.
Pesquisa dramatúrgica sobre o Cavalo Marinho: Alício Amaral e Juliana Pardo. Pesquisa em máscaras do Cavalo Marinho: Alicio Amaral, Juliana Pardo, Cibele Mateus e Val Ribeiro. Projeto audiovisual: Panamérica Filmes; produção: Mariana Pardo; realização: Cia. Mundu Rodá Teatro Físico e Dança.
Por que a peça interessa além do palco
Ao colocar figuras tradicionais dentro de uma cidade que as expulsa, o espetáculo transforma uma questão de política cultural em dramaturgia. A pergunta sobre quem tem utilidade na cidade é a mesma que se faz sobre quem tem espaço na cena.
Para quem pesquisa teatro físico, o valor do trabalho está no método: anos de convivência com mestres, registro de corporeidades e teste dessas corporeidades em situações cênicas novas. É um caminho de pesquisa que se pode verificar no corpo dos atores, e não apenas no discurso do programa.
Leia também
Teatro físico: o que é e como se constrói a cena
Princípios do teatro físico, diferença em relação ao teatro de texto e o que sustenta a cena.
Dramaturgia do corpo: quando o movimento conta a história
Como o corpo escreve a dramaturgia, o papel do tempo e da repetição e por que o gesto tem sentido.
Criação coletiva: como um grupo constrói um espetáculo
Etapas de uma criação coletiva, o que precisa de método e como se decide em grupo sem perder a obra.