Estrada: o espetáculo de 2010
Em Estrada, a Cia. Mundu Rodá dilui as fronteiras entre teatro, música e dança. O espetáculo cênico-musical se organiza em uma dramaturgia centrada na poética da ação corpóreo-vocal e trata das relações dinâmicas entre indivíduo e sociedade.
A sinopse é breve e não antecipa o percurso: em algum lugar, um grupo de pessoas sem morada anda pelas ruas e cidades inventando formas de sobreviver. Com a chegada de uma nova figura, novos rumos se revelam na trajetória de cada um.
A peça percorre caminhos entre a ternura e a brutalidade, o fantástico e o real, a descrença e a fé. Esses três pares não funcionam como temas separados, e sim como faixas de intensidade que o mesmo corpo atravessa ao longo da apresentação.
É uma escolha de dramaturgia, não de estilo. Em vez de contar uma história com começo, meio e fim bem marcados, a montagem organiza encontros, e cada encontro desloca um pouco o rumo do grupo.
A inspiração no cinema
O espetáculo é livremente inspirado na obra La Strada, de Federico Fellini, e dialoga com passos, ritmos e corporeidades das danças tradicionais brasileiras. O resultado é apresentado como fruto do projeto de pesquisa e montagem Estrada, da Cia. Mundu Rodá.
A inspiração é de estrutura, e não de transposição. Da estrada como forma narrativa vem a ideia de que o enredo é o deslocamento, e de que cada parada apresenta alguém que muda a relação do grupo com o mundo.
Uma parceria de longa duração
Contemplado pelo Prêmio FUNARTE Myriam Muniz, o espetáculo Estrada é fruto do trabalho colaborativo e do intercâmbio artístico entre a Cia. Mundu Rodá Teatro Físico e Dança e o Teatro Studio Farm in the Cave, de Praga, na República Tcheca, parceiros desde 2008.
O que a parceria produz não é fusão de estilos, e sim confronto de métodos. Duas companhias que treinam o corpo de maneiras distintas precisam negociar o que cada procedimento revela, e é nessa negociação que a linguagem da peça se forma.
O lugar do orientador cênico
Viliam Docolomansky assina a orientação cênica. Ele relata que, ao ser convidado pela companhia, encontrou uma situação em que poderia aplicar ideias vividas em experiências anteriores com a cena, sem saber bem qual é o lugar ocupado pela figura do orientador cênico.
O fator essencial da parceria, segundo ele, foi a empatia de gêneros entre o trabalho de sua companhia e o que a Mundu Rodá desenvolve. Seu desejo por um teatro pautado no ritmo e na precisão do gesto encontrava a linguagem que os artistas já vinham pesquisando, sobretudo na cultura popular brasileira e no teatro físico.
O processo se desenvolveu enquanto ele analisava o material mostrado pelos artistas, buscando conexões possíveis e propondo situações para o desenvolvimento de cenas e imagens. A pesquisa procurou respeitar as narrativas e necessidades que nascem do corpo do ator.
Elementos em jogo
| Elemento | Como aparece no espetáculo | O que observar |
|---|---|---|
| Ação corpóreo-vocal | Base da dramaturgia, no lugar do texto explicativo | Como a cena avança sem narração |
| Música | Eixo do desenvolvimento dramatúrgico, com arranjos próprios | Se o som antecipa ou acompanha a tensão |
| Percussão corporal | Técnica trabalhada por Ronaldo dos Santos | O corpo como instrumento coletivo |
| Danças tradicionais | Passos e ritmos brasileiros em contexto urbano | O atrito entre o gesto tradicional e a rua |
| Figuras da cidade | Camelôs, mendigos e moradores de rua como referência | Como a observação vira presença cênica |
Atuação guiada pela música
Uma das decisões centrais do processo foi guiar uma atuação inspirada na música. O material musical serviu como um dos eixos do desenvolvimento dramatúrgico, com as músicas presentes nas danças dramáticas brasileiras repensadas a partir de arranjos.
Assim, a musicalidade norteava os criadores quanto às tensões que cada cena poderia representar. A música não entra depois para sublinhar o que já está resolvido: ela participa da decisão sobre o que a cena é.
Junto ao material musical, outras referências rondavam o ambiente de trabalho. A obra de Fellini e figuras sociais como camelôs, mendigos e moradores de rua da cidade de São Paulo indicavam encontros possíveis para a pesquisa.
O que a pesquisa exige do elenco
- Treinamento contínuo em danças tradicionais brasileiras.
- Escuta musical anterior à marcação da cena.
- Técnica de percussão corporal como base rítmica compartilhada.
- Observação de rua como método de composição.
- Disposição para o jogo coletivo, sem protagonismo fixo.
- Aceitar o deslocamento como estrutura, não como acidente.
Esse conjunto explica por que a peça é descrita como pesquisa e montagem no mesmo movimento. O espetáculo é o resultado visível de um treinamento que continua depois da estreia, e não um produto fechado que se repete sem alteração.
Ficha técnica
Coordenação de montagem e direção geral: Juliana Pardo. Pesquisa de dramaturgia: Cia. Mundu Rodá e Viliam Docolomansky. Orientação cênica: Viliam Docolomansky.
Elenco: Alício Amaral, Juliana Pardo, Val Ribeiro, Marcelo Bulgarelli e Daniel Zacharias. Treinamento em danças tradicionais brasileiras: Alício Amaral e Juliana Pardo.
Pesquisa musical: Cia. Mundu Rodá, Viliam Docolomansky, Julius Gonçalvez e Ronaldo dos Santos. Técnica de percussão corporal: Ronaldo dos Santos. Realização: Cia. Mundu Rodá de Teatro Físico e Dança.
Um teatro do aqui e agora
O projeto Estrada é descrito pela companhia como a construção de uma ponte para conexões culturais junto à ancestralidade, sem tomar o passado de maneira inconsciente. O objetivo declarado é um efeito imediato e autêntico, para um teatro do aqui e agora.
A entrega dos atores Alício Amaral e Juliana Pardo às manifestações populares aparece nessa formulação como parte do método. A tradição entra como material de trabalho vivo, e não como repertório de citações.
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