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Rabeca Primeira Sonora: a música da companhia

Espetáculos · Atualizado
Rabeca Primeira Sonora: a música da companhia

O show musical Rabeca Primeira Sonora, criado por Alício Amaral, propõe uma imersão no universo sonoro da rabeca, instrumento popular de arco semelhante ao violino. A apresentação se dedica a um instrumento ainda pouco conhecido e difundido no Brasil, mostrando suas potencialidades musicais, seus timbres e seus “sotaques”.

O ponto de partida é uma pergunta insistente, daquelas que aparecem no meio do ensaio e não saem mais: que sonora é essa que me atravessa? Que instrumento tão especial é esse? Tantos Brasis num só pedaço de madeira.

Uma madeira que atravessou o mundo

A rabeca é um instrumento proveniente do Rebab, instrumento importado do Norte da África, com notícias de sua utilização desde a Idade Média. Precursora do violino, é encontrada em diversas manifestações populares e religiosas desde os remotos tempos da colonização brasileira.

Chamar a rabeca de violino primitivo é um erro comum e empobrecedor. O parentesco explica a semelhança de forma, mas não estabelece hierarquia: são trajetórias distintas, com repertórios, técnicas e contextos sociais que nunca se confundiram.

A digital sonora de cada instrumento

Cada rabeca possui um som único e penetrante, a sua digital sonora. Com quatro, três ou cinco cordas, arcos de diferentes tamanhos, diferentes madeiras e formas, o instrumento apresenta aos ouvidos sonoridades inesperadas, vindas de terras remotas.

Cada rabequeiro carrega o seu som, que brota e floresce em toadas e baianos. Por isso ouvir rabeca é sempre ouvir uma pessoa: não existe timbre padronizado, e a diferença entre dois instrumentistas é parte do que se escuta.

A proposta do espetáculo

Rabeca Primeira Sonora não é uma aula musicada nem uma demonstração de técnica. É um concerto que organiza o repertório como percurso, apresentando o instrumento por dentro das músicas que ele toca, e não por fora delas.

A escolha tem consequência direta para quem assiste. Em vez de explicar o que é uma rabeca antes de tocar, o show deixa que a escuta faça esse trabalho e reserva a palavra para o que o som não resolve sozinho.

ElementoComo aparece no showO que escutar
RabecaInstrumento de arco em primeiro planoO grão do som, sem imitar o violino
ArcoArcadas longas e curtas alternadasComo o ataque define o sotaque
ToadaMelodia de tradição oral no repertórioA repetição que fixa a melodia
BaianoGênero tocado em versões própriasO balanço rítmico da condução
SotaqueMarca regional impressa na execuçãoO que muda de um rabequeiro a outro

O repertório alterna momentos de exposição do timbre com passagens em que a rabeca se mistura a outros instrumentos. Essa alternância evita o risco do disco de vitrine, em que cada faixa prova uma qualidade diferente e nenhuma se sustenta como música.

Popular e erudito no mesmo chão

Através de composições próprias, Alício Amaral propõe um diálogo entre a música popular tradicional e a música erudita. São dois mundos não tão distintos, que apontam um chão firme e fértil para trilhar.

O diálogo não acontece por citação nem por contraste forçado. O que aproxima os dois campos, aqui, é o trabalho com o som em si: afinação, emissão, densidade e silêncio, tratados como matéria de composição.

Som por som, Rabeca Primeira Sonora apresenta possibilidades de criação musical a partir das matrizes musicais tradicionais brasileiras. A novidade não está em inventar uma linguagem, e sim em levar a sério o que a tradição já organizou.

Composições próprias e convidados

O show se sustenta em composições próprias, o que desloca a rabeca do lugar de acompanhante para o de protagonista. Em boa parte do repertório tradicional, o instrumento cumpre função de condução; aqui, ele assume também a responsabilidade pela forma.

A presença de músicos convidados amplia o desenho sonoro e cria situações de diálogo que não existiriam em uma apresentação solo. Cada convidado entra com seu instrumento e com sua escuta, e a rabeca se posiciona em relação a eles.

Ficha técnica e gravação

A direção musical e os arranjos são de Alício Amaral, Luiz Fiaminghi e Luciano Fagundes. Entre os músicos convidados estão Daniel Rodrigues, Eder “O” Rocha, Juliana Pardo, Julius Gonçalves, Luciano Fagundes, Luiz Fiaminghi, Maurício Maas, Paulo Dias, Siba e Zezinho Pitoco.

O material foi gravado e mixado por KK Akamine no Estúdio Cachuera!, em São Paulo, e deu origem ao CD Rabeca Primeira Sonora. A gravação permite reouvir detalhes que a apresentação ao vivo, com sua sala e seu público, naturalmente dispersa.

O que escutar em uma apresentação

  • O ataque do arco, que define o sotaque de cada faixa.
  • A diferença de timbre entre a rabeca e o violino.
  • O momento em que a melodia se repete e se transforma.
  • O balanço rítmico das toadas e dos baianos.
  • A entrada dos convidados e o que cada um desloca.
  • Os silêncios que a composição deixa em aberto.

Vale acompanhar também a relação entre palco e público. Um concerto de rabeca trabalha com uma escuta mais próxima do que a de uma sala sinfônica, e essa proximidade faz parte da proposta: o som penetrante do instrumento pede distância curta.

Um instrumento a ser difundido

A rabeca é encontrada em manifestações populares e religiosas em várias regiões do país, e ainda assim permanece pouco conhecida fora dos círculos em que é tocada. Essa distância entre presença real e reconhecimento público é o problema que o show enfrenta.

Rabeca Primeira Sonora faz isso sem didatismo: coloca a rabeca no centro, com composições próprias e convidados, e confia que a escuta resolva o resto. Para quem nunca ouviu o instrumento, é um começo; para quem já o conhece, é uma conversa sobre o que ele pode ser.

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