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Arigós: bandeira, espinha-de-peixe, cara-de-gato

Espetáculos · Atualizado
Arigós: bandeira, espinha-de-peixe, cara-de-gato

Arigós, pássaros migratórios, foi o apelido dado aos soldados da borracha que nos anos da segunda grande guerra chegaram aos bandos em terras amazônicas. Não foram os primeiros: desde o final do século XIX, milhares de nordestinos migraram do sertão para a floresta, iludidos pela fortuna prometida advinda de uma árvore, a Hevea brasiliensis, a seringueira.

O Projeto Arigós parte desse episódio. A constatação da Cia. Mundu Rodá é dura: a exploração da borracha foi a primeira grande ferida aberta na Amazônia. Construiu cidades e a riqueza de alguns e significou conflito, morte e miséria para tantos outros, apagados pela História.

A engrenagem do Segundo Ciclo

Propagada durante décadas, a ideia de que a Amazônia era “uma terra sem homens para homens sem terra”, lema do governo ditatorial do Gal. Emílio Garrastazu Médici, justificou os ciclos de exploração dos recursos naturais do Xingu e do rio Iriri.

No Segundo Ciclo da Borracha, o governo brasileiro se comprometeu com os EUA, nos Acordos de Washington, a produzir látex em larga escala para a indústria da guerra. O acordo cobria a falta do recurso provocada pela tomada da Malásia pelos japoneses, em 1942.

Em 1943 foi criado o SEMTA, órgão sediado em Fortaleza e responsável pelo recrutamento compulsório de nordestinos que sofriam com as grandes secas. A isca era a promessa de ganhos financeiros e de uma vida melhor.

A viagem até o alto rio Iriri

Depois de uma viagem de navio até Belém, esses nordestinos eram recebidos e selecionados por espécies de “empresários” que ganhavam do Estado o direito de administrar a produção dos seringais, os “patrões”.

Da capital do Pará, os arigós subiam o rio Amazonas e adentravam no Xingu até o porto de Vitória do Xingu. Dali seguiam mais 45 quilômetros por terra até Altamira e, na última etapa, prosseguiam por longos dias até o alto rio Iriri.

O percurso é uma sequência de estreitamentos: mar, rio grande, rio menor, estrada de terra e, no fim, a mata. A cada troca de meio, a possibilidade de voltar diminuía.

Etapa da rotaMeioO que acontecia
RecrutamentoSEMTA, em FortalezaSeleção de sertanejos atingidos pela seca
Chegada ao ParáNavio até BelémRecepção pelos “patrões”
Subida dos riosAmazonas e XinguDesembarque em Vitória do Xingu
Trecho por terra45 quilômetrosChegada à cidade de Altamira
Última etapaDias de viagemEntrada no seringal do alto rio Iriri

Aviamento, dívida e conflito

Ao chegar ao seringal, o arigó, seringueiro “brabo”, aprendia o trabalho com outro mais experiente, o “manso”. Juntos partiam para “riscarem as madeiras”, numa jornada que se iniciava por volta das quatro da manhã e se encerrava no cair da tarde.

No local realizavam a “defumação da borracha”, que transformava o látex líquido em uma bola mais rígida e permitia a pesagem e o transporte. Concluído o serviço, ainda deveriam pescar o peixe que, com a farinha, compunha sua alimentação deficiente.

Embora os seringais fossem instituições comerciais, não se submetiam às normas do comércio da época. O sistema de aviamento regulava as transações internas: o seringueiro se endividava para comprar alimentos, tralha de pesca e utensílios. A “caderneta” era amortizada ao fim da safra e, sem controle dos registros, quase nunca era saldada.

Os arigós também se envolviam em disputas com os povos que antes viviam naquelas áreas. Eram constantes as emboscadas contra seringueiros e suas famílias, o que detonava expedições dos patrões, lideradas por homens especializados no extermínio. A situação impulsionou a criação do SPI, hoje FUNAI, cujas frentes de atração resultaram nas Terras Indígenas e Parques Nacionais do norte do país.

O abandono depois da guerra

Com o fim da 2ª Guerra Mundial e a queda dos lucros, o colapso econômico provocou o abandono dos seringais pelos patrões e também desses milhares de trabalhadores. Estima-se que, dos quase 60.000 homens que ali chegaram, apenas dez por cento conseguiram retornar por meios próprios. Os demais morreram ou se assentaram na região, em modos de sobrevivência igualmente precarizados.

Uma migração criativa

Inspirada nos textos amazônicos de Euclides da Cunha e nas histórias de homens e mulheres ribeirinhos, descendentes dos arigós e hoje também povos da floresta, a Mundu Rodá entra no universo amazônico no rastro da borracha. Em “Migração criativa”, o espetáculo é um deslocamento do universo cultural nordestino, com que o grupo trabalha há 20 anos, rumo a uma Amazônia ainda imaginada.

A pesquisa de campo sustentou essa passagem. No Pará, a Expedição Médio Xingu durou 40 dias no rio Xingu, entre as RESEX Rio Iriri e Riozinho do Anfrísio. No Acre, a expedição passou pelo rio Acre, por comunidades da RESEX Chico Mendes e pelas cidades de Rio Branco, Xapuri, Epitaciolândia, Brasiléia e Cobija, na Bolívia.

Seis estudos cênicos abertos

Em 2019, dentro do projeto ARIGÓS – Guerras Diásporas, Rios em Abandono, o grupo abriu ao público seis Estudos Cênicos, todos gratuitos:

  • “Guerra, Como se nada Fosse”, com Vinicius Torres Machado.
  • “Diálogo sobre a Guerra – Estudos Improvisados”, com Lu Favoreto.
  • “Um Rio Corta a Montanha”, com Maria Thais.
  • “Diásporas”, também com Maria Thais.
  • “Rios em Abandono | Rastros D’Água”, com Cris Colla e Lu Favoreto.
  • “Vermelho, Branco e Preto ou Estudo Sobre Mateus”, com Juliana Pardo e Salloma Salomão.

Antes disso, o projeto foi contemplado pela 3ª edição do Prêmio Zé Renato de Teatro para São Paulo, que financiou a montagem de ARIGÓS – Primeiros Riscos da Borracha, apresentado na sede da companhia e no Teatro Paulo Eiró. Em 2017 passou pelo Teatro do Heliópolis. Em 2020, entra no repertório como Arigós – Bandeira, Espinha-de-Peixe, Cara-de-Gato.

Ficha técnica e o que observar

A concepção e a atuação são de Alício Amaral e Juliana Pardo, com direção de Antonio Salvador e coordenação dramatúrgica de Luís Alberto de Abreu e Maria Thaís. Os textos são de Murilo de Paula e Euclides da Cunha, com excertos de A Margem da História. A direção musical é de Alício Amaral, a luz de Eduardo Albergaria e o cenário e figurino de Eliseu Weide.

Completam a equipe Cibele Mateus na assistência de direção e som, Wellington Campos e Alexandre Buda na preparação corporal Deuses que Dançam (Orixás), o FIT360 no treinamento funcional, Charles Raszl e Zuza Gonçalves na preparação musical e Marlui Miranda, que cedeu o áudio em off da canção do seringueiro.

Em cena, o deslocamento aparece no corpo antes da fala. A mudança de peso e a relação com o chão dizem mais sobre a viagem do que qualquer narração. O texto de Euclides da Cunha entra como camada, não como explicação.

Atenção. Este portal é informativo. Datas, autoria e dados sobre pessoas, grupos e comunidades devem ser conferidos na fonte antes de qualquer uso.

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